A Infografia é Jornalismo?

Temos consciência que são diversos os contextos (publicitários, científicos, econômicos, etc.) em que encontramos a presença de informação visual. Podemos afirmar que a infografia é uma representação diagramática de dados, Valero Sancho (2008, p.21) define-a de uma forma mais complexa e com uma finalidade bem definida. Ou seja, para este autor a infografia consiste numa unidade informativa de elementos icónicos e tipográficos, que permite ou facilita a compreensão dos acontecimentos, ações ou aspetos mais significativos da atualidade, que acompanha ou substitui o texto informativo. Contrastando com as definições apresentadas, a definição conceptual de De Pablo( in CAIRO, 2008) defende a infografia como a apresentação impressa de um binómio: texto + imagem. Compreendemos que esta definição se enquadre com o aparecimento das imagens gráficas, mas consideramo-la mesmo assim, uma definição bastante redutora e um pouco ingénua na contextualização histórica em questão. Isto porque aceitamos que o produto infográfico tem na sua base a imagem e o texto, mas que estes não são os únicos intervenientes no processo de informação visual, como apresentaremos mais à frente, na abordagem dos diferentes níveis de linguagem (a impressa e a digital).

 

Então, quais serão as características que fazem da infografia uma parte essencial do jornalismo?  Partilhamos da opinião de Valero Sancho (2011, p.21), que o infográfico deve dar significado à informação atual, plena e independente, permitindo por si só a compreensão do acontecimento, através da tipografia e de elementos concordância. Encontramos nas caracterizações de Peltzer (1992) e Valero Sancho (2011, p.21) um carácter uniforme ao afirmar que a infografia agrega de fato todas as características, o que a torna uma parte fundamental do panorama do jornalismo atual.

 

Até ao momento verificamos que a infografia, através das suas características ganhou espaço e relevância como uma unidade discursiva jornalística, levando-nos a crer que esta é um género jornalístico importante e enriquecedor para o mundo online. Após uma década de existência como produto jornalístico no meio online, a infografia digital tem sido potencializa à custa da informatização das redações e da convergência do mundo editorial com o mundo audiovisual. Face à conjuntura atual da convergência de redações é previsível que nos próximos anos se assista a uma revolução na área da infografia digital. O que diferencia a infografia no contexto da linguagem jornalística online, reside no fato de seus dados se apresentarem de forma visual e estética aliada aos recursos multimídia e interativos, pela sua função informativa. Neste sentido, acreditamos que a infografia digital sobrevive enquanto genero ciberjornalístico, pois além de apropriar das características estruturais da infografia jornalística impressa.Ela agrega em si as potencialidades do meio digital (multimidialidade, interatividade, entre outras) permitindo que o utilizador desdobre o conteúdo informativo de uma forma personalizada e autónoma. Fato determinado através de uma das características mais relevantes da infografia digital: a interatividade.

Jornalismo de dados no Zeit Online

 

O projeto permite comparar padrões de vida em vários países. Utilizando dados do PISA, aborda um relatório sobre o nível da educação no mundo, publicado em 2010. O relatório se baseia em um questionário aplicado a crianças de quinze anos sobre as condições de vida delas.

A idéia surgiu com objetivo de fornecer e comparar os padrões de vida nós diferentes países. A equipe editorial decidiu os fatos que seriam úteis para tornar os padrões de vida comparáveis. Riqueza: Número de TVs, carros, situação familiar, percentual de famílias com apenas um filho, pais desempregados, acesso a internet. Esses fatos foram traduzidos em ícones. Uma programação de design foi construída para fazer comparações entre diferentes países. O resultado gerou muito tráfego na internet. É muito simples comparar os países, fazendo do aplicativo uma referência.

Através do Zeit Online, o projeto tem aumentado o tráfego e ajudado a envolver o público de varias formas. Como por exemplo, houve muita cobertura sobre a situação da usina nuclear em Fukushima depois do tsunami no Japão. As pessoas podiam ler um monte de coisas sobre as evacuações.

Há dois anos o departamento de pesquisa e desenvolvimento e o redator-chefe do Zeit Online, Wolfgang Blau, defendem o jornalismo de dados como uma importante maneira de contar histórias. Transparência, credibilidade e envolvimento do usuário são partes importantes da filosofia. Por isso o jornalismo de dados é uma parte natural do trabalho atual e futuro. Visualizações de dados podem agregar valor para a recepção de uma matéria e é uma forma atraente para toda a equipe editorial apresentar conteúdos.

 

Histórico do Jornalismo Guiado Por Dados no Brasil

Durante o governo de Fernando Collor como presidente, o jornalista Mário Rosa, funcionário do Jornal do Brasil, usou o sistema integrado de administração para verificar as fraudes na compra de leite em pó, então presidida pela primeira-dama, Rosane Collor.

Assinada pelo jornalista Mário Rosa, a matéria estava completa, com números de ordens bancárias. O acesso a esse sistema, que registra os gastos do governo federal, possibilita fazer uma analise de todos os pagamentos feitos aos fornecedores. Uma mina para os repórteres. O jornalismo ganhava uma importante fonte de informação. Na época, o acesso a este tipo de base de dados não podia ser visto por cidadãos e jornalistas. O autor da reportagem, Mário Rosa, só pôde realizar pesquisas, porque o então senador Eduardo Suplicy (PT-SP) emprestou a sua senha. A partir desta e de outras reportagens, o Governo Federal decidiu permitir oficialmente o acesso de jornalistas, tornando uma das primeiras bases de dados públicas. O diretor de redação do O Globo, foi outro repórter que nos anos 1990, usou a senha de um parlamentar para realizar pesquisas, em colaboração com o analista econômico Gil Castelo Branco, diretor da Organização Não-GovernamentalContas Abertas. Estes dois casos são os primeiros exemplos na história do jornalismo brasileiro.

Durante os anos 1990, repórteres como Fernando Rodrigues e José Roberto de Toledo, começaram a usar técnicas de RAC. A partir de 1998, Fernando Rodrigues construiu o banco de dados Políticos do Brasil. Em 2002, José Roberto de Toledo se torna um dos sócios-fundadores e vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), entidade fundamental nós conceitos e técnicas da RAC no Brasil, tendo treinado vários jornalistas. A estrutura da Abraji se deu a partir de um seminário promovido pelo Centro Knight para o Jornalismo, os principais palestrantes foram Brant Houston, autor de um manual de RAC e o diretor do IRE, e Pedro Armendares, da organização mexicana Periodistas de Investigación. Embora seja uma associação voltada ao jornalismo investigativo em geral, a Abraji atuou na última década principalmente na divulgação da RAC e na defesa do acesso à informação.

Jornalistas de dados cidadãos

As mesmas informações úteis para o jornalista de dados também podem ajudar repórteres cidadãos acessar a região onde vivem e transformá-las em matérias. Essa foi à principal motivação do projeto de mídia cidadã “Amigos de Januária”, apoiado pelaRising Voices, da Global Voices Online, e pela organização Artigo 19. Entre setembro e outubro de 2011, jovens moradores da cidade de Januária, no norte de Minas Gerais, uma das regiões mais pobres do Brasil, tiveram aulas sobre técnicas básicas de jornalismo e monitoramento do orçamento público. Aprenderam como preencher formulários de pedidos e como acessar bases de dados oficiais na internet.

Januária, uma cidade com cerca de 65 mil habitantes, é conhecida pelo fracasso de seus políticos. Durante três mandatos municipais, teve sete prefeitos. A maior parte foi removida do cargo devido a denúncias que apontavam má condução da administração municipal, incluindo corrupção. Cidades pequenas como Januária não atrai atenção da mídia, que foca em capitais e outros municípios de grande porte. No entanto, existe espaço para que os moradores dessas localidades ajudem a monitorar a administração pública, já que conhecem os problemas enfrentados pela população. Tendo como auxilio a internet para ajudar, podendo acessar de forma mais fácil e rápida informações como orçamento municipal e outros dados.

Depois de participar de varias aulas, alguns repórteres cidadãos de Januária começaram a acessar dados públicos sobre a cidade e a produzir matérias. Houve diversas descobertas iniciais levantam muitas questões sobre as possíveis razões para a divergência entre os dados e a realidade de Januária. Um exemplo é os dados do SUS que estava errado, o que poderia indicar que há um problema na qualidade das informações. Outra é que Januária estaria informando dados errados para o SUS. A situação em Januária é complicada por causa do número de veículos na cidade. De acordo com o IBGE, Januária tinha 13.771 veículos, entre 7.979 eram motos, em 2010. A população da cidade acredita que o atraso em arrumar o semáforo não é resultado da falta de recursos. A cidade recebe R$ 470 mil em taxas de veículos em 2010. De acordo com os dados Januária tinha muitos veículos, quase um para cada cinco habitantes, e que um semáforo quebrado em um cruzamento movimentado poderia colocar muitas pessoas em risco. Também pode revelar o volume de recursos recebidos pela cidade em pagamento de impostos pelos proprietários de automóveis e, baseado nessa informação, questionar se o dinheiro não seria suficiente para consertar o semáforo, oferecendo mais segurança para motoristas e pedestres.

Os dados também podem ser usados por repórteres cidadãos. Não é preciso estar em uma redação para usar dados em matérias jornalísticas.

 

Jornalismo de Dados na BBC

O jornalismo de dados na BBC abrange projetos que utilizam dados para realizar uma ou mais das seguintes ações:

  • Permitir que o leitor descubra informação pessoalmente relevante;
  • Revelar uma história extraordinária ou desconhecida;
  • Ajudar o leitor a entender melhor uma questão difícil;

No site da BBC News, utiliza dados para fornecer serviços e ferramentas aos usuários há mais de uma década.

Um exemplo é uma publicação em 1999, tabelas das redes escolares, que utilizam dados publicados anualmente pelo governo. Leitores podem encontrar escolas locais, inserindo o código postal, e compará-las de acordo com os indicadores. Jornalistas da educação trabalham com a equipe de desenvolvimento para arrastar os dados às suas matérias antes da publicação. O ministério da educação tem o seu próprio serviço de comparativo. O desafio nessa área é proporcionar o acesso aos dados nos quais há um interesse público. Um exemplo recente de um projeto, foi à reportagem especial  Every Death on Every Road (Cada morte em Cada estrada). Fornecendo uma busca por código postal, permitindo os usuários encontrem a localização de todos os acidentes ocorridos nas estradas do Reino Unido na última década.

O projeto tem uma parceria com a London Ambulance Association e a rádio e TV BBC de Londres para monitorar acidentes em toda a capital. Relatado online em tempo real, e também através do Twitter utilizando a hashtag #crash24. Proporcionando maneiras de explorar grandes conjuntos de dados, foram criadas ferramentas simples para usuários, que fornecem informações. Estas ferramentas interessam àqueles sem tempo disponível, que podem não querer uma longa análise. A capacidade de compartilhar facilmente um fato.

Outro exemplo é a ferramenta The world at 7 billion: What´s your number (O mundo em 7 bilhões: Qual é o seu número?), publicada para coincidir com a data oficial em que a população mundial ultrapassou 7 bilhões. Quando colocava a data de nascimento, o usuário podia descobrir qual “número” ele era, quando nasceu. O número podia ser compartilhado através do Twitter ou Facebook. O aplicativo usava dados fornecidos pelo fundo de desenvolvimento da população das Nações Unidas. Era muito popular, e foi o link mais compartilhado em 2011 no Facebook do Reino Unido.

Jornalismo de dados e Colaboração além das Fronteiras

Os jornalistas investigativos são interessados em desvendar corrupção e crimes, que afetam a vida de milhões de pessoas. Vários dados de governos e outras organizações estão disponíveis online, disponíveis ao alcance de todos. Ao mesmo tempo vários corruptos nos governos e grupos de crime organizado se empenham em ocultar as informações. Há um esforço para manter as pessoas desenformadas enquanto conduzem negócios que causam problemas na sociedade, levando a conflitos, fome e outras crises. É obrigação do jornalista investigativo expor os malfeitos e, fazendo isto, desmantelar corruptos e criminosos.

Há três diretrizes que podem levar um jornalista a investigar grandes atos de corrupção e crime.É muito mais fácil obter informação fora do país. Informação obtida via bancos de dados estrangeiros ou por meio de leis de acesso à informação de outros países, pode ser o que precisa para fechar uma apuração investigativa. Criminosos não mantêm o dinheiro no mesmo lugar onde ele foi roubado. Preferem depositar em bancos estrangeiros ou investir em laranjas. Bases de dados que ajudam o jornalista investigativo a rastrear o dinheiro podem ser encontradas em vários lugares na internet.

Jornalistas investigativos de todo mundo se juntam em organizações como The Organized Crime and Corruption Reporting ProjectThe African Forum for Investigative ReportingThe Arab Reporters for Investigative Journalism, and The Global investigative Journalism Network. Jornalistas podem também fazer uso de plataformas de jornalismo profissional como a IJNet, onde informações são trocada diariamente. Vários repórteres dessas redes encontram situações parecidas, trocam informações e métodos. Listas de discussão por email e grupos de redes sociais.

Softwares ajudam os jornalistas investigativos a acessar e processar informação mais rápida. Eles são úteis para depurar, fuçar, coletar. Há muitos programas já prontos que podem ser usados como ferramenta para analisar, colher, ou interpretar informação, jornalistas investigativos precisam saber que há muitos programadores prontos para ajudar se necessários. Um exemplo de interface entre programadores é o ScraperWiki, onde jornalistas podem pedir ajuda. O Investigative Dashboard mantém uma lista de ferramentas prontas para recolher, modelar, e analisar dados. Há várias vantagens em usar as diretrizes, além de obter melhor acesso à informação. Uma delas é evitar os risco e garantir melhor proteção aos repórteres investigativos. O jornalista que trabalha com colegas em outros países, é mais difícil para criminosos identificarem o responsável pela exposição dos seus crimes. Como resultado, fica muito mais difícil para os corruptos tentarem uma retaliação ao jornalista.

Escola de Dados

Visando o mercado de Jornalismo de Dados no Brasil e no mundo, estão sendo criadas escolas com o objetivo de capacitar jornalistas e outras pessoas da sociedade para usar os dados disponíveis na internet de forma eficaz.

Com o jornalismo de dados é possível aumentar a transferência e a responsabilidade do governo. Porém, jornalistas e outros profissionais de comunicação ainda não possuem habilidades para trabalhar com esse jornalismo.

Nos cursos oferecidos pelas escolas de dados é necessário aprender a programar para ter um bom proveito dos dados. No curso os alunos são ajudados na indicação de matérias e ferramentas oferecidas na Web.

Os materiais para a realização do curso são gratuitos e são liberados através de uma licença. Também são oferecidos treinamentos off-line.

 

Lucas C.